Transformando Vidas: Projetos de Sucesso

O projeto Sinais da Prevenção é o mais recentemente desenvolvido pela ECOS, durante o ano de 2017. Na execução da iniciativa, que contou com a parceria da Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos de São Paulo (Feneis), foram cerca de 30 horas de Oficinas de capacitação com oito encontros na EMEBS Helen Leller para surdos, no bairro da Aclimação, em São Paulo.

O curso incluiu uma oficina para adolescentes e jovens surdos de todas as regiões de São Paulo, na qual foram trabalhados diversos assuntos – como a sexualidade, a identidade de gênero, a prevenção de DSTs e a questão da saúde sexual e reprodutivo e a profilaxia da violência e abuso sexual.

Os beneficiados, em sua maioria jovens com diferentes orientações sexuais. Na produção do curso e dos vídeos, havia também pessoas ouvintes (assim chamados os “não-surdos”), uma das questões que chamaram a atenção foram os nomes dados pelos jovens surdos aos ouvintes, estes recebiam um sinal em Libras, referente à aparência ou ao jeito, modo pelo qual identificavam as pessoas mais facilmente. Essa medida demonstrou o interesse dos surdos em incluir os que não o são.

Em todos os oito encontros houve a presença de um intérprete de libras, que fazia a ponte entre os ouvintes e os surdos.

Cada semana continha uma proposta e assunto específicos, todos trabalhados com dinâmicas e interação de todos. As atividades incluíram teatro, confecção e edição de vídeos, debates e rodas de conversas, entre outros formatos. No penúltimo dia, em específico, os beneficiados atuaram em vídeos dirigidos e escritos por ouvintes, que são colaboradores da ECOS e, portanto, puderam ajudar e auxiliar. Os vídeos trabalharam temas como o uso de preservativos, gravidez e homossexualidade, tudo feito com muito bom humor ou mesmo de uma maneira dramática.

Foram usados diversos formatos nos vídeos editados, como o cinema mudo, a estética dos quadrinhos e a montagem televisiva e digital – como se a produção fosse um programa de TV ou conteúdo veiculado em um canal do YouTube. Os materiais elaborados foram exibidos no último encontro, a fim de mostrar aos deficientes auditivos o quanto eles haviam progredido e aprendido ao longo do curso.

Estamos no país que mais mata LGBTs no mundo – um a cada 25 horas, para ser mais exato. Esse número se iguala a muitas guerras ao redor do mundo. Ele totaliza 340 mortos no ano, pessoas mortas por serem consideradas aberrações, mortas apenas por amar alguém do mesmo gênero ou não se vestirem como a sociedade impõe. Apesar de o País não viver mais no período da ditadura, é isso que a sociedade faz: impõe. Dizendo coisas como “você até pode ser gay, mas entre quatro paredes”, “ninguém precisa saber ou ver o que você faz ou com quem você anda” etc.

Além do grande preconceito que é a LGBTfobia, ainda se convive com questões como racismo, xenofobia e preconceito portadores de deficiência. “Primeiro, as pessoas pensam na minha identidade como surdo. Olham e pensam que sou incapaz. O primeiro rótulo que eu ganho, na verdade, é o de ser incapaz. Não sou uma boa pessoa, não posso ter uma boa casa e nem um bom emprego”, diz Matheus Schineider, 18 anos.

Se neste país já é difícil ser uma minoria, que o diga ser uma minoria dentro de outra. Esta é a realidade de Matheus, futuro universitário, gay, surdo e beneficiado pelo projeto Sinais da Prevenção, da ECOS em parceria com a Feneis e o Ministério da Saúde.

O processo de descobrimento para Matheus foi bem natural. “No começo, minha mãe não aceitava. É difícil ficar escondendo muitas coisas da família. Apesar disso, tenho uma prima que me apoia; meu irmão, que também é gay; e minha irmã, que também é surda”, conta.

Ele defende a ideia de que o processo de se assumir não deve ser feito de qualquer maneira. O ideal é preparar todos para a notícia. Ser gay é algo pelo qual ninguém deve pedir respeito, isso já deveria ser intrínseco, porém, cada um é cada um e as pessoas tiveram criações diferentes. Então, em sua visão, o aconselhável é criar um caminho para isso. “O importante é mostrar a minha identidade surda para, só depois, então, me assumir como gay”, afirma.

Apesar de não existir um movimento LGBT dentro da comunidade surda, Matheus compreende seu papel como protagonista na luta pelos seus direitos como pessoa com deficiência auditiva. Já participou de alguns projetos relacionados e, inclusive, neste da ECOS, ofereceu-se para ser roteirista e diretor no vídeo final. Ele já fez algumas edições de vídeo e gosta de trabalhar em áreas que exercitem sua criatividade.

Em relação aos Sinais da Prevenção, o jovem considera importante porque é uma conversa que as pessoas precisam ter. Se, muitas vezes, o acesso à informação já é difícil para os ouvintes, a questão se torna ainda mais complexa para os surdos. Com o projeto, a informação chega a quem precisa, plantando uma semente, a qual irá brotar e se espalhar para as outras pessoas que não têm acesso, gerando, assim, uma corrente de informação e conhecimento.

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